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Ana Paula Maia e a Violência Ecológica
em 23/03/2016

A produtora cultural Fernanda Guimarães, pesquisadora do Conexões Itaú Cultural, conta como foi a mesa que mediou no mais recente encontro internacional do projeto sobre o trabalho da escritora Ana Paula Maia, autora dos romances De Gados e Homens e A Guerra dos Bastardos, entre outros escritos, publicada na Sérvia, Alemanha, França e Argentina. Participaram também do debate o crítico e professor de literatura brasileira e portuguesa na Universidade de Buenos Aires Gonzalo Aguilar e a professora de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras (UFRJ) Anélia Montechiari Pietrani.


Ouça o registro em áudio do debate.


O objetivo da segunda mesa do 8º Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural era avançar nas discussões sobre a recepção da literatura brasileira fora do Brasil – um dos objetivos do mapeamento promovido, desde 2008, pelo Conexões Itaú Cultural – por meio do diálogo entre a escritora Ana Paula Maia, o professor e tradutor argentino Gonzalo Aguilar e a pesquisadora carioca Anélia Montechiari Pietrani.


Como ponto de partida, propunha-se debater a presença de Ana Paula Maia no mundo literário como uma das representantes da literatura brasileira recente em feiras e eventos internacionais. A autora comentou sua carreira, iniciada sem as conexões, referências ou contatos de que dispõem muitos escritores. Sua presença literária fora do Brasil, aspecto que interessava particularmente à mesa, se deu inicialmente com a publicação de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos pela Record, participando então de antologias, sendo a primeira a italiana Sex ‘n’ bossa, mas ainda sem grandes consequências. A mudança na presença literária fora do Brasil aconteceu em 2011, quando uma pequena editora sérvia, de Belgrado, procurava uma escritora, de preferência mulher, que escrevesse sobre violência. A referência era Cidade de Deus, de Paulo Lins. Foi assim que A guerra dos bastardos foi publicado na Sérvia. Além de Sérvia e Croácia, contou sobre as edições de seus romances na França, além de outras previstas para Espanha, Itália e Estados Unidos.


Gonzalo Aguilar centrou sua participação no último romance de Ana Paula Maia. De Ganados y de Hombres que foi lançado na Argentina pela Eterna Cadencia Editora, em 2015, com tradução de Cristian De Nápoli, e causou grande impacto em público e crítica – foi na Argentina que a obra de Maia conseguiu a melhor repercussão fora do Brasil. Aguilar começou sua interpretação por David Viñas, um dos fundadores da crítica moderna na Argentina, e sua célebre frase de que a literatura argentina emerge da metáfora da violação. Essa origem, observou, é algo que se repete, e a realidade parece confirmar essa afirmação. Aguilar comentou então a visão moderna da violência, discordando da comparação que se faz entre os textos de Maia e os de Rubem Fonseca, observando que a violência em Fonseca seria moderna, instrumental, enquanto a de Ana Paula Maia não poderia ser curada, nem poderia ser lida a partir das interpretações modernas.


A partir da esquerda Fernanda Guimarães, Gonzalo Aguilar, Ana Paula Maia e Anélia Pietrani (foto Ivson Miranda)


Aguilar propôs, então, o conceito de violência ecológica, segundo o qual não é importante apenas a violência entre os homens, mas também a relação de violência entre os seres vivos, entre homens e animais, com o meio. O objetivo é lidar com essa violência, e não superá-la de modo dialético, porque ela existe e é ubíqua. Diferentemente do que faz Graciliano Ramos em Vidas Secas – humanizar o animal para mostrar a animalização do humano –, no romance de Maia a questão seria como o animal está dentro do homem e o homem dentro do animal.


Para ilustrar ainda o conceito de violência ecológica, lembrou da enxurrada de lama tóxica que atingiu o distrito de Mariana, em Minas Gerais, no início de novembro. “…estão procurando uma indenização monetária, mas (…) é uma violência que ninguém sabe como pensar, que não admite ser intelectualizada e que é mais um problema afetivo que comunicativo – para sair do moderno. E que a violência não é só entre homens, mas também com os animais e com a terra”. Essa violência está incorporada nos trabalhos que consideramos normais, como o trabalho no matadouro, mas é permanentemente negada. O matadouro seria a separação da violência, a limitação da violência a espaços determinados, porque não se deseja vê-la. Os sujeitos humanos do romance de Maia não praticam a violência consciente ou inconscientemente, com intenções boas ou más, e as vacas é que agem do modo mais subjetivo possível, suicidando-se. Em suma, a violência serviria para pensar o limite entre a vida e a morte, o animal e o homem, a natureza e a cultura.


Anélia Montechiari Pietrani, professora adjunta de Literatura Brasileira da UFRJ e coordenadora do NIELM – Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura, comentou sua própria trajetória até chegar ao estudo da obra de Ana Paula Maia. O NIELM, criado em 1992 e coordenado por ela, segue uma linha de resgate da literatura de autoria feminina e outra ligada à contemporaneidade. Pietrani também falou do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, que começou como uma revista virtual em 2009 e desde 2010 passou a abarcar encontros anuais, tendo Ana Paula Maia participado do primeiro deles. A revista publica artigos, resenhas e entrevistas principalmente feitos por alunos, e o evento tem recebido pessoas do Brasil inteiro, além de professores estrangeiros, dentre os quais o Prof. Friedrich Frosch (mapeado do Conexões), que traduziu para o alemão o conto que deu origem a De gados e homens. Maia, além de ter participado do fórum, tem tido sua obra contemplada com resenhas e apresentação de comunicações e artigos.


Pietrani sintetizou, em três palavras, sua relação com a obra de Maia: desafio, risco e fascínio. As duas primeiras seriam decorrentes de se propor a refletir sobre uma obra que está em curso, com personagens que transitam pelos livros; a terceira se daria em função de trabalhar com uma obra em que o sujeito-objeto de estudo está presente, podendo dialogar. Não é possível, afirmou, pensar que a literatura brasileira acabou com Guimarães Rosa e Clarice Lispector, sendo preciso escutar novas vozes. Propôs então uma série de questões que promovessem o diálogo pretendido no encontro, dirigidas tanto para Ana Paula Maia quanto para Gonzalo Aguilar. Por exemplo, indagou se a autora pensaria em um leitor ao escrever, se haveria diferença entre o leitor brasileiro e o estrangeiro, o que haveria nessa obra que faz com que ela seja bem recebida no exterior, se a questão temática do “Brasil violento” teria uma função e se a recepção teria relação com identidade ou forma.


Vinculando o debate a um tema particularmente caro ao projeto Conexões – o interesse dos mapeados do projeto pelo cinema –, pediu-se também que Maia abordasse a relação de sua literatura com a linguagem cinematográfica. A escritora contou que, até o final da adolescência, viu muito mais filmes do que leu livros. Seus dois primeiros livros são mais verborrágicos, mas encontrou sua expressão nos livros seguintes, mais econômicos e centrados em personagens secos, simples e com pouco vocabulário, atribuindo a concisão à linguagem visual. “Eu não sinto o livro, eu vejo o livro (…). Literariamente, eu saio de casa. Estou dentro do meu espaço, mas eu vou para um espaço muito distante de mim”.


Respondendo a questões da mesa e da plateia, Maia afirmou que pesquisa exaustivamente antes de escrever, que sente necessidade de dominar primeiro o período em que se passa a história e a técnica envolvida na ocupação profissional de seus personagens, usando esses elementos quando necessário durante a narrativa. Considera o momento da pesquisa fundamental, frequentemente deparando-se com elementos novos, que levam a história para lugares que não imaginava.


Gonzalo Aguilar falou também de sua atividade como tradutor, decorrente de sua atuação como crítico. Contou sobre a tradução, em parceria com Florencia Garramuño, de Grande Sertão: Veredas, trabalho que se beneficiou das múltiplas leituras anteriores, primeiro com a polêmica dos uruguaios Ángel Rama e Emir Rodríguez Monegal, em seguida com a tradução feita nos anos 1960 por Ángel Crespo, poeta espanhol, que tornou o livro mais vanguardista do que de fato era. Defendeu que a cada 20 anos os clássicos voltem a ser traduzidos e comentou a importância da política de apoio a traduções da Biblioteca Nacional, que deveria ser conjugada com uma estratégia muito mais refletida, a cargo de um instituto que fizesse essa articulação, como o Instituto Machado de Assis, já anunciado pelo Ministério da Cultura brasileiro.


Ao abordar sua relação com o ensino e a literatura brasileira fora do Brasil, Aguilar destacou que adotaria o romance de Ana Paula Maia em aula por se tratar de uma narrativa que ajuda a pensar a violência ecológica. Seria preciso, prosseguiu, pensar como será quando acidentes como o de Mariana se repetirem, como vamos nos preparar politicamente para esse novo tipo de violência. Mesmo sua disciplina sendo de literatura brasileira, o interesse vai além do fato de serem brasileiros ou não. Procura bons escritores, que permitam pensar a literatura segundo o marco local, nacional e universal, sua relação com a crítica e a literatura argentina, com os tópicos desenvolvidos no departamento. “É uma violência que resiste a ser narrada e pensada, mas com De Gados e de Homens eu acho que podemos começar”, sintetizou.

Assista depoimentos em vídeo com os debatedores:

Ana Paula Maia

Anélia Pietrani

Gonzalo Aguilar

Leia mais sobre o 8º Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural – O olhar do outro: a recepção da literatura brasileira: link.

Assista outros depoimentos em vídeo na playlist do Conexões Itaú Cultural.

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