Alison Entrekin e Berthold Zilly conversam sobre tradução no Jogo de Ideias
em 28/10/2010

Em entrevista conduzida pelo jornalista Claudiney Ferreira e pela professora da universidade do Novo México Leila Lehnen para o programa Jogo de Ideias, Alison Entrekin e Berthold Zilly falam da experiência como tradutores de literatura brasileira. Entrekin, mestre em criação literária na Austrália, traduziu obras como Cidade de Deus (Paulo Lins) e Budapeste (Chico Buarque), enquanto o também professor e crítico Berthold Zilly traduziu clássicos como Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Memorial de Aires, de Machado de Assis. A entrevista foi gravada na Casa da Cultura, em Paraty, durante a 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

A conversa tem início com a leitura de um trecho de Cidade de Deus por Alison Entrekin. A tradutora utiliza o trecho para falar das dificuldades da tradução de palavras e gírias características do submundo carioca, e do trabalho de encontrar um vocabulário prisional correspondente no inglês, cuja pesquisa incluiu mesmo conversas com ex-presidiários. Berthold Zilly fala sobre a opção por manter a palavra “sertão” na tradução alemã do livro de Euclides da Cunha. “É uma paisagem tipicamente brasileira”, ele diz, concordando com Entrekin em que é necessário levar o leitor da tradução ao contexto do original. O tradutor, ele diz ainda, está inserido em uma tradição, e precisa conhecer o que outros fizeram antes dele.

Na segunda parte da entrevista, Berthold Zilly fala sobre o caráter híbrido da obra de Euclides da Cunha, que exige que o tradutor esteja atento a vários registros: ensaio científico, historiográfico e poético, cheio de “inventividade poética e exatidão científica”. Zilly comenta ainda o problema de se traduzir autores antigos, duplamente de outro contexto. Além da necessidade de ser fiel a expressões e termos, há a tarefa de levar ao leitor estrangeiro os conhecimentos pressupostos pelo escritor em seu tempo e contexto. Alison Entrekin e Berthold Zilly falam ainda sobre processo de trabalho e sobre como os livros que traduzem chegam até eles.

Neste vídeo, Berthold Zilly fala sobre o que lhe chama atenção numa obra. O estilo, o impacto, mesmo a “dimensão sonora”, como diz o tradutor, remetendo à tradição alemã das gravações em áudio de textos literários. “Se eu tenho uma ambição estética, é a de reconfigurar as qualidades essenciais da sonoridade da obra em língua alemã”, sintetiza.

Como traduzir a dimensão histórica de um livro? Como remeter o leitor à época e ao espaço social em que está ambientada a obra? Para Berthold Zilly, trata-se de um trabalho ao mesmo tempo de estética e semântica, de atenção ao estilo do autor, mas também às características da língua de partida e suas correspondências com a língua de chegada. Alison Entrekin termina o bloco com a leitura de um trecho de Budapeste, de Chico Buarque, e fala sobre a dificuldade de traduzir a leveza extremamente calculada do texto.

Este trecho da entrevista começa pela leitura de Berthold Zilly de um trecho de sua tradução de Os Sertões, contrapondo-a ao original. O tradutor mostra como o texto se reporta veladamente a outras obras, com alusões bíblicas e remissões à tragédia grega. Recompor este subtexto, nesse caso, foi o desafio da tradução. Zilly fala ainda sobre como relaciona as atividades de tradutor, professor e crítico. Segundo ele, a experiência da tradução deu profundidade às demais atividades.

“Acho importante um tradutor não se aproximar do trabalho através da linguística”, diz ainda Alison Entrekin neste bloco da entrevista, para falar da importância da imaginação na tradução. Por fim, o jornalista Claudiney Ferreira pergunta aos convidados: por que trabalhar com literatura brasileira no exterior, quando boa parte da crítica insiste em que nossa literatura não tem força lá fora?

Há mercado para traduções de livros brasileiros? Para Berthold Zilly, o país está na moda, como potência emergente, e isso chama atenção para a cultura do país, sobretudo na Alemanha, onde cerca de metade do mercado editorial é destinado a traduções. Houve, contudo, momentos em que a América Latina já recebeu atenção maior, diz o tradutor, citando o boom da literatura latino-americana na década de 1960. Para Zilly, o Brasil poderia fazer mais pela divulgação de seus escritores no exterior, incluindo o incentivo à tradução de clássicos ainda pouco conhecidos lá fora. Para Alison Entrekin, o mercado de língua inglesa oferece mais dificuldades, pelo pouco espaço destinado a traduções em geral. Nesse contexto concorridíssimo, os países que possuem incentivos oficiais à tradução acabam conquistando mais espaço.

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