Quatro cenas da literatura brasileira contemporânea
em 18/01/2011

A julgar pela qualidade dos lançamentos em 2010, a literatura brasileira contemporânea está num momento a ser celebrado. Apostando no que ainda virá pela frente, Conexões dá início às postagens de 2011 com uma sugestão de releitura. Trata-se de um acurado apanhado crítico escrito pelo mapeado Pedro Meira Monteiro, em resenha para a Folha de S. Paulo de 18 de dezembro do ano passado.

Professor de literatura brasileira na Universidade de Princeton, Monteiro analisa quatro importantes obras de ficção publicadas em 2010. Os livros são Do Fundo do Poço se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron, Paisagem com Dromedário, de Carola Saavedra, O Único Final Feliz para uma História de Amor É um Acidente, de João Paulo Cuenca e Os Anões, de Veronica Stigger.

No texto, que o leitor confere abaixo, Pedro Meira Monteiro traça algumas linhas de força dessa produção tão diversa, encontrando ecos temáticos e estilísticos entre autores contemporâneos, e destes com alguns clássicos. No entanto, sua ênfase está muito mais naquilo que escapa a estes fios, tornando a produção literária recente irredutível a uma explicação por meio de linhagens, e permitindo vislumbrar a nesga de novidade que o contemporâneo cria a partir de tudo que lhe está disponível.

Novos autores revelam urgência pelo ato de narrar

Crítico analisa obras dos novos autores Terron, Saavedra, João Cuenca e Stigger, todas lançadas durante 2010

PEDRO MEIRA MONTEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

O que têm em comum “Do Fundo do Poço se Vê a Lua” (Joca Reiners Terron), “Paisagem com Dromedário” (Carola Saavedra), “O Único Final Feliz para uma História de Amor É um Acidente” (João Paulo Cuenca) e “Os Anões” (Veronica Stigger)?

A tentação de responder com uma linha evolutiva da literatura brasileira, elogiando-lhe a vitalidade contemporânea, é grande, mas também inútil.

Não que não possamos imaginar parentescos: penso por exemplo em Oswald (de Andrade (1890-1954) como um avô bastardo de Veronica Stigger, no romance de Carola Saavedra como um primo do relato bandeiriano de Adriana Lisboa, ou então no inescapável gostinho de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll em Joca Reiners Terron.

Essa rede poderia estender-se ao infinito e no entanto jamais daria conta da novidade que está nos quatro autores.

TOM AFLITO

Com exceção de “Os Anões”, cujos microrrelatos tendendo ao absurdo fazem pensar num Samuel Beckett (1906-1989) gaúcho que pusesse o leitor a esperar em vão por um sentido qualquer, as demais obras têm em comum narradores que se perdem e se encontram em suas próprias histórias, como se suas vidas dependessem da possibilidade de narrar.

Daí nasce a urgência por contar que dá a cada uma destas narrativas seu tom aflito.

Em Cuenca (“O Único Final Feliz para uma História de Amor É um Acidente”), tal aflição se projeta num verdadeiro mangá literário, em que, sob vigilância, o narrador principal vive um sonho breve, logo esmagado pelos desejos invejosos do pai.

Antes do esmagamento, que se faz aos poucos, vemos emergir um belo e titubeante veio lírico, como se a doçura perturbadora e úmida dos olhos dos mangás se contrapusesse ao horror de um Godzilla paterno que arrasa a paisagem e o futuro do filho. É numa Tóquio onírica, a um só tempo estranha e familiar, que se passa a história.

FANTASMAS

Em “Paisagem com Dromedário”, Carola Saavedra monta uma preciosa cadeia amorosa que, se desdobrando, revela uma série de fantasmas que inclui a própria narradora, de quem ouvimos apenas a voz gravada, que nos faz perguntar: onde está, ou quem é aquele que conta?

A sustentação da voz está condicionada à ação de uma máquina que, ao fim, descobrimos ligada.

Ecos hispano-americanos: não será também o diálogo de Ricardo Piglia com Macedonio Fernández (1874 -1952) que escutamos nesta paisagem dos extremos, em que descobrimos que a narrativa só pode ser aquilo que o narrador deixou, isto é, aquilo que foi abandonado?

Talvez o compromisso com a lírica seja uma característica renitente da literatura brasileira.

Contudo, enquanto o veio lírico se encontra pleno em alguns autores (de João Anzanello Carrascoza a Milton Hatoum), em outros ele não faz mais que se entremostrar, poderoso em sua discrição.

É o caso de Joca Reiners Terron em “Do Fundo do Poço se Vê a Lua”, história meio brasileira meio egípcia em que a experimentação com a voz narrativa atinge um nível muito alto.

É difícil não se comover, se zangar e rir com o narrador que vive em sua plenitude o aspecto ficcional da experiência, rasgada pelo dilaceramento do sexo. É possível que, no caso deste livro, presenciemos um entroncamento complexo da história literária no Brasil.

LÍRICA IMPROVÁVEL

Penso, por exemplo, no momento em que, enamorada pelos punks de fliperama da década de 80, Cleo (ou Wilson, ou Liz Taylor) os vê se prostituindo, numa cena cuja vileza é compensada pelo quadro daqueles seres que somem “dentro dos trólebus silenciosos que desciam a rua Augusta, levando-os de volta aos subúrbios”.

Como se a crueldade angulosa de um Rubem Fonseca repentinamente cedesse a um improvável passeio lírico pela metrópole, como acontecia em João Antônio (1937-1996).

Mas o reencontro furtivo da lírica em meio à aridez da cidade grande não é também o fio, hoje, de um autor como Luiz Ruffato?

A teia de parentescos continua crescendo e, no entanto, esses autores são sempre mais do que podem sugerir estas alusões.

Pode-se supor que estejam todos esperando por aquele misterioso e “solitário facho de luz” que se vê na “Caverna”, de Veronica Stigger. Um raio que permita ao sujeito enfim se revelar, o que no entanto só é possível enquanto existir a ficção.


PEDRO MEIRA MONTEIRO é professor de literatura brasileira em Princeton, autor de “Um Moralista nos Trópicos” (Boitempo).

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