Literatura africana e moçambicana: entrevista com o ensaísta Francisco Noa
em 28/10/2019

Nascido em Inhambane, Moçambique, em 1962, Francisco Noa é ensaísta, doutor em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, professor de Literatura Moçambicana na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique e reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio). Publicou Perto do Fragmento, a totalidade: olhares sobre a literatura e o mundo; Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária e Uns e outros na literatura moçambicana, entre outros. Noa integrou o Júri Intermediário, que selecionou os semifinalistas da edição 2019 do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, apoiado pelo instituto Itaú Cultural.

 

Francisco Noa (foto: Gustavo Miranda)

Francisco Noa (foto: Gustavo Miranda)

 

Leia a seguir a entrevista exclusiva com o professor moçambicano, realizada pelo jornalista e antropólogo Felipe Lindoso para o blog Conexões Itaú Cultural:

 

O professor Martin Puchner dos EUA, em seu livro O mundo da escrita: como a literatura transformou a civilização (lançado há pouco no Brasil), destacou recentemente a importância da literatura para a conformação da nossa humanidade. E como alguns textos que eram declamados pelos bardos, griots e sacerdotes ganham versões escritas que se transformam em clássicos formadores da nossa percepção do mundo, citando Gilgamesh; a Ilíada; a Odisseia; o Popol Vuh, dos Maias; e A Epopeia de Sundiata, no Mali e na Guiné. Como esse papel formador (ou até deformador) da literatura se aplica no caso moçambicano, em seu livro Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária?

 

Enquanto fenômeno de escrita, enquanto modo específico de fazer mundos, a literatura tem cumprido, desde sempre a função de transmitir e, de certo modo, tornar perene não só percepções subjetivas, mas também coletivas. Olhando particularmente para o caso africano, onde globalmente as interações da arte com o meio de onde ela emerge são profundas e estruturantes, é indisfarçável a projeção de uma visão do mundo mais ampla e que traduz, muitas vezes, formas de sentir e de estar de uma determinada sociedade, num espaço temporal também determinado. No livro a que faz referência, e que é a minha dissertação de doutoramento (2001), procuro rastrear as representações que precederam as literaturas africanas, e que povoam a literatura colonial. Esta, dominantemente caracterizada por um viés eurocêntrico muito marcado nos romances que analisei e escritos, sobretudo entre os anos 20 e 70 do século XX, é uma apologia, nalguns casos epopeica e autojustificativa da presença portuguesa na África. Por outro lado, a representação da África e dos africanos é aí genericamente dominada pelo preconceito e pelo reducionismo da sua condição humana. A literatura africana vai surgir tanto em contraponto a essa perspectiva marcada no imaginário colonial, como na afirmação e reivindicação de um território cultural e identitário próprio. Tanto numa perspectiva colonial como africana temos, assim, a literatura como uma forma de reinvenção de África e dos africanos, obviamente com um ponto de vista determinado e claramente distinto.

 

A participação das literaturas nacionais na “República Mundial das Letras”, esse ideal que tem origem no iluminismo, é quase sempre problemática, seja em função do idioma em que as obras são produzidas ou por questões geopolíticas. Essa questão tem ainda suas particularidades em uma nação plurilíngue, como Moçambique. Como o senhor percebe essa situação?

 

A questão linguística, muito particularmente no que a literatura diz respeito, falo concretamente da língua literária, tornou-se durante décadas um verdadeiro campo de batalha, por motivos historicamente compreensíveis. Primeiro, é preciso perceber que o que são hoje nações africanas, tendo em conta as suas fronteiras administrativas e políticas, são criações europeias e que implicaram a sobreposição das línguas oficiais europeias (português, inglês e francês), sobre as línguas originalmente africanas. Segundo, essas línguas europeias, um dos maiores instrumentos da dominação colonial, instituíram-se como línguas de comunicação oficial, administrativa, de instrução e de afirmação profissional e social. Terceiro, essa imposição implicou a marginalização das línguas africanas, no caso de Moçambique com cerca de 20 línguas autóctones, pois praticamente toda a escolarização e, consequentemente, a produção literária, era dominada pela língua portuguesa. É verdade que, como uma triunfante estratégia literária, ao longo da recente história destas literaturas, a intereferência das línguas africanas tem dado um cunho muito particular e estimulante na configuração da língua literária. Por outro lado, essa mesma língua literária, à imagem da própria língua portuguesa cotidianamente utilizada pelos falantes das ex-colónias, encontra-se profundamente enriquecida e transformada em termos fonológicos e morfossintáticos, pelas incorporações e influências que, durante séculos, sofreu das línguas bantu, de tal modo que essa conflitualidade linguística, a existir, adquiriu hoje outros e novos contornos. Além do mais, grande parte dos jovens, alguns deles escritores, sobretudo das zonas urbanas, têm o português, bem moçambicanizado, se quisermos, como língua materna.

 

Dois autores moçambicanos já ganharam o Prêmio Camões (José Craveirinha e Mia Couto). Mia Couto, particularmente, já recebeu outros prêmios internacionais e é bem conhecido no Brasil. Que outros autores de literatura moçambicana merecem e deveriam ser mais conhecidos? Quais são os outros “uns e outros” da literatura moçambicana?

 

Em função do paradigma dominante em nível dos universos de recepção que mais sobressaem numa época determinada, há autores que adquirem maior ou menor notoriedade. No caso de Moçambique, acredito que também nos outros países de língua oficial portuguesa, esse paradigma acabará por não se cingir a critérios estritamente estéticos, mas também ideológicos, sociológicos  e mesmo políticos. Na altura da revolução, na segunda metade dos anos 70, por exemplo, a literatura que teria maior curso seria aquela que mostrava maior compromisso com essa mesma revolução e os ideais que ela preconizava e que fazia com que autores como José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Orlando Mendes e outros tivessem mais destaque, fossem dos mais difundidos. Uma escrita mais irreverente, contestatária e intimista já nos anos 80 e 90, projetaria autores como Luis Carlos Patraquim, Heliodoro Baptista, Ungulani Ba Ka Khosa, Mia Couto, Suleiman Cassamo, Eduardo White, Aldino Muianga, entre outros. Dois autores vindos também dos anos 50 e 60, inspirariam esta geração, na poesia (Rui Knopfli) e na prosa (Luis Bernardo Honwana). Nos últimos vinte anos, temos assistido a afirmação de uma geração que, por influxo das transformações culturais e tecnológicas globais, sem perderem de vista questões sociais e existenciais específicas, experimentam novas formas e temáticas e traduzem uma sensibilidade estética que se procura conciliar com um tempo e um mundo verdadeiramente disruptivo e cosmopolita. Dessa geração, alguns deles já publicados no Brasil, destaco, entre outros, Guita Jr, Adelino Timóteo, Lucilio Manjate, Clemente Bata, Hélder Faife, Sangare Okapi, Andes Chivangue, Sónia Sultuane, Hirondina Joshua, Melita Matsinhe, Pedro Pereira Lopes, Mbate Pedro, Nelson Lineu. Não posso deixar de mencionar autores cujo percurso literário apesar de tardio, são incontornáveis, tais são os casos de João Paulo Borges Coelho, Paulina Chiziane e Lica Sebastião.  

 

Por favor, comente os intercâmbios – ou falta de – da literatura moçambicana com a literatura brasileira, assim como com as literaturas de outros países lusofalantes da África. O mundo acadêmico ajudou ou tem ajudado no intercâmbio das literaturas em língua portuguesa dentro de África, em Portugal e no Brasil? Existe circulação de livros de literatura brasileira (e dos outros países africanos de língua portuguesa) em Moçambique?

 

Infelizmente, a questão da circulação dos produtos culturais no espaço de língua portuguesa é extremamente deficitária. É verdade que, em termos musicais e das telenovelas, o Brasil tem tido um ascendente inquestionável. É verdade também que, no passado, autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Jorge Amado tiveram uma tremenda influência nos leitores e futuros autores dos países africanos de língua portuguesa. Portanto, um movimento sobretudo unidirecional. Hoje, quer pelo notável trabalho das universidades brasileiras, sobretudo dos departamentos de letras, alguns autores africanos começam a ser muito bem conhecidos pelo público brasileiro. Editoras como, só para citar alguns exemplos, a Companhia das Letras e a Kapulana têm ampliado significativamente o universo de recepção dos autores africanos no Brasil. Falta, neste caso, o movimento inverso. É muito escassa a presença da literatura brasileira, tirando os livros técnicos, nos países africanos.  

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