Conexões Itaú Cultural inicia mapeamento de estudos sobre cinema brasileiro
em 05/08/2019

 

 

 

Desde 2007, o Conexões Itaú Cultural realiza um mapeamento inédito da presença da literatura brasileira no mundo, com as pesquisadoras Fernanda Guimarães e Rita Palmeira, e os consultores Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha. Hoje, o mapeamento já figura com 347 mapeados em 34 países, representando 166 instituições (universidades, centros de estudos, associações etc). Em 2019, o programa inicia o mapeamento de pesquisas acadêmicas sobre cinema brasileiro em instituições estrangeiras. Nessa nova vertente, Eduardo Morettin, Professor de História do Audiovisual, da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (USP), atuará como consultor. A seguir, está uma entrevista com Morettin, analisando possíveis escopos para estruturar esse novo caminho do Conexões Itaú Cultural.

 

 

 

1) Quais são suas principais referências de nomes e instituições estrangeiras que são relevantes na pesquisa sobre o cinema brasileiro?

 

Há muitos pesquisadores que realizaram trabalhos importantes sobre cinema brasileiro fora do Brasil. Penso, dentre outros, em Robert Stam e Randal Johnson. Eles organizaram o primeiro livro em língua inglesa sobre cinema brasileiro, a saber, Brazilian Cinema (1982), que traz textos de viés panorâmico sobre diversos períodos de nossa história, com ênfase nos estudos a respeito do cinema novo e do que havia sido realizado até então, ou seja, o final dos anos 1970. A primeira parte é dedicada aos textos e manifestos escritos pelos diretores. A segunda, aos filmes. A terceira, a temas específicos. A Paulo Emílio Salles Gomes, que tem o seu ensaio Cinema: trajetória no subdesenvolvimento (1973) traduzido, o livro é dedicado. Os dois pesquisadores consolidaram, com inúmeras publicações, como Tropical Multiculturalism (1997, vertido para o português em 2008), de Stam, que história a presença de negros e índios no cinema brasileiro desde os primeiros tempos, passando por Cinema Novo x 5: Masters of Contemporary Brazilian Film (1984) e The Film Industry in Brazil: Culture and the State (1987), todo um campo de estudos sobre o cinema feito aqui se irradiou em diferentes pesquisas universitárias hoje em curso nos Estados Unidos.

 

Sylvie Debs dedicou-se ao estudo da cultura brasileira por meio da literatura e do cinema brasileiro, em especial o cinema novo, como atestam os livros Cinéma et Littérature au Brésil Les Mythes du Sertão: Émergence d’une Identité Nationale (2002; traduzido para o português em 2007 com segunda edição em 2010) e Brésil, l’atelier des cinéastes (2004). Paulo Antonio Paranaguá, crítico e historiador sediado na França, é outro nome que poderia aqui ser evocado. Ele publicou inúmeros trabalhos no exterior sobre o cinema latino-americano e brasileiro, com destaque para a organização do livro Le cinéma brésilien (1987), fruto de uma retrospectiva consagrada ao cinema brasileiro realizada pelo Centro Georges Pompidou, de março a outubro de 1987.

 

A referência a esta mostra é importante também para salientar o papel que as cinematecas, os centros e as instituições culturais ocupam na divulgação de nossos filmes, produzindo livros e catálogos que sistematizaram, em determinado momento, o que se produziu a respeito do tema. Dentre as inúmeras publicações evoco o livro/catálogo Prima e dopo la rivoluzione: Brasile anni ’60: dal cinema novo al cinema marginal (1995), ligado à décima terceira edição do Festival Internazionale Cinema Giovani, realizado na cidade de Turim, e, mais recentemente, Tropicália and Beyond: Dialogues in Brazilian Film History (2017), livro organizado por Stefan Solomon, que reúne ensaios, entrevistas e manifestos a propósito de mostra homônima ocorrida na Tate Modern em novembro de 2017.

 

A presença de movimentos, cineastas, filmes e estrelas que circulam pelos dois lados do continente ou do Atlântico também motivaram pesquisas muito consistentes, como a de Catherine Benamou (It’s All True: Orson Welles’s Pan-American Odyssey, 2007) a respeito da empreitada cinematográfica empreendida por Orson Welles no Brasil nos anos 1940, e as reunidas por Tim Ergfelder, João Luiz Vieira e Lisa Shaw no livro Stars and stardom in Brazilian Cinema (2017), dedicadas às estrelas de nosso cinema, como Carmen Miranda.

 

O cinema novo e, em especial, Glauber Rocha, como se constata pelos títulos listados acima, constituem o foco de interesse também pela sua articulação com o cinema e a cultura latino-americanas. Pesquisadores como Tzvi Tal (Pantallas y revolución. Una visión comparativa del cine de liberación y el cinema novo, 2005), Peter Schumann e Peter Schulze, organizadores de Glauber Rocha e as culturas na América Latina (2011), e Ignacio Del Valle Dávila (Le nouveau cinéma latino-américain. 1960 – 1974, 2015) são alguns dos estudiosos que procuraram situar essa contribuição e o caráter transnacional dos filmes, textos e manifestos do movimento. A riqueza dos filmes de Glauber, por sua vez, estimulam estudiosos a enfrentar sua obra em perspectiva com o cinema moderno, como faz David Oubina em Filmología: Ensayos con el cine (2000), um dos muitos que poderiam ser citados.

 

Ao falarmos de uma perspectiva transnacional, o trabalho que vem desenvolvendo Lúcia Nagib, atualmente na University of Reading, deve ser ressaltado. Lúcia Nagib construiu sua trajetória acadêmica na Universidade de São Paulo, pesquisando o cinema de Werner Herzog e Nagisa Oshima. Em sua carreira como professora nas universidades inglesas, coordenou inúmeras iniciativas editoriais de relevo, como o recente On Cinema (2017), que reúne textos de Glauber Rocha, muitos deles pela primeira vez disponíveis em inglês, além de ter publicado diversos artigos e livros dedicados à história do cinema brasileiro, como Brazil on screen: Cinema Novo, new cinema and utopia (2007). Cabe ressaltar também a coordenação do projeto de pesquisa Towards an Intermedial History of Brazilian Cinema: Exploring Intermediality as a Historiographic Method, em parceria com professores do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos. Por fim, há um grupo de publicações mais recentes que deve ser indicado, como os de: Lisa Shaw e Stephanie Dennison, responsáveis pela organização de Popular Cinema in Brazil (2004) e Brazilian National Cinema (2007); Maite Conde, autora de Consuming Visions. Cinema, Writing, and Modernity in Rio de Janeiro (2012) e Foundational Films: Early Cinema and Modernity in Brazil (2018), e co-organizadora com Dennison de Paulo Emílio Salles Gomes: On Brazil and Global Cinema (2018); Alberto da Silva, Genre et dictature dans le cinéma brésilien. Les films d’Ana Carolina et Arnaldo Jabor (2016). Estes livros atestam a diversidade de temas e abordagens na reflexão sobre o cinema brasileiro nas publicações editadas no exterior.

 

A despeito da existência de tantos pesquisadores que no exterior se dedicam e estudam o cinema brasileiro, não é possível afirmar que há um centro de referência internacional que tenha o nosso cinema como eixo identitário. Muitas universidades no exterior possuem departamentos de espanhol e português, além de centros de estudos latino-americanos nos quais o cinema é um dos assuntos de interesse, mas nem sempre o principal. Há também universidades com forte tradição em estudos brasileiros. Neles, alguns estudiosos se destacam, como Darlene Sadlier, autora de Nelson Pereira dos Santos (2012) e professora do programa interdisciplinar Brazilian Studies do Center for Latin American and Caribbean Studies da Indiana University. Por último, gostaria de me referir às associações científicas internacionais, como a Brazilian Student Association (BRASA) e a Latin America Studies Association (LASA), espaços importantes de apresentações de resultados de pesquisa ligados ao cinema brasileiro no exterior.

 

 

 

2) Qual recorte pretende sugerir para iniciar o mapeamento? Qual o público inicialmente pretendido?

 

O recorte será fornecido tanto pelo levantamento de informações já mapeadas pelo projeto Conexões Itaú Cultural, quanto por pesquisas complementares a serem feitas nas instituições dedicadas à pesquisa e preservação da história do nosso cinema, como as universidades, as associações científicas e a Cinemateca Brasileira. A intenção é a de incluir no mapeamento pesquisadores vinculados a estas instituições que tenham publicado livros ou catálogos sobre cinema brasileiro no exterior, pensado ou como objeto autônomo ou em relação a outras cinematografias. Em uma estimativa inicial são mais de cinquenta pesquisadores espalhados pelos quatro cantos do mundo, uma parte atuante desde a década de 1980, outra formada mais recentemente. Essa diversidade geográfica, institucional e geracional provavelmente se refletirá no mapeamento que pretendemos entregar para consulta ao público em geral.

 

 

 

3) Criado com foco na literatura brasileira no exterior, o Conexões Itaú Cultural constatou que Cinema é a principal resposta à questão “outros aspectos de interesse da cultura brasileira” entre os mapeados. Como trabalhar relações entre os dois temas nesta nova fase de mapeamento?

 

Muitas vezes a “porta de entrada” do pesquisador para o universo cinematográfico brasileiro ocorreu por meio da literatura e de seu estudo no exterior. Um dos exemplos é Randal Johnson, que fez o seu mestrado sobre Adonias Filho na Universidade do Texas e depois concluiu seu doutorado pela mesma instituição comparando o livro Macunaíma, de Mário de Andrade com o filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade, lançado em 1969, tese que foi publicada no Brasil com o título Literatura e cinema: Macunaíma: do modernismo na literatura ao cinema novo (1982). Contribuiu também para esse interesse o fato de termos filmes muito ricos na abordagem que propõem das obras literárias, como é o caso de Graciliano Ramos e as leituras fílmicas de Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas, 1963) e Leon Hirszman (São Bernardo, 1972), de Clarice Lispector por Suzana Amaral (A hora da estrela, 1985), de Raduan Nassar por Luiz Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica, 2001), dentre inúmeros exemplos que poderiam ilustrar esse percurso e movimento comparatista. Adaptações continuam a ser feitas e a discussão teórica sobre as relações entre cinema e literatura constitui um dos campos mais densos de reflexão teórica, como indica o trabalho atualmente desenvolvido por Denilson Lopes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro que, na Universidade de Columbia, realiza pesquisa sobre a produção literária de Mário Peixoto, diretor de Limite (1931). Há, portanto, que se abrir para as múltiplas possibilidades de pensar essa relação cinema e literatura, incorporando as pesquisas mais recentes e os olhares recíprocos que que são trocados.

 

 

 

4) Qual a expectativa específica em relação ao trabalho com os itens a seguir? Gostaria de destacar algum outro? Ficção, Documentários, Animação, Festivais / Premiações, Produtoras, Distribuidoras, Universidades / Instituições de ensino.

 

A ideia, como ficou indicado acima, é a de mapear principalmente a produção acadêmica, vinculada também aos festivais e cinematecas. No que diz respeito aos arquivos fílmicos, é bom salientar que não há propriamente divulgação do patrimônio cinematográfico de nossa cultura se não existirem arquivos bem organizados e em funcionamento. O que interessa é recuperar essa reflexão sobre o cinema brasileiro, não importando muito se ela se efetiva por meio de documentários ou filmes de animação.

 

 

 

5) O poder público vem atuando para propiciar boas notícias para o cinema brasileiro no exterior, em relação ao mercado e pesquisa?

 

As agências de fomento no estado de São Paulo e no país, como a FAPESP e a CAPES, destinam ainda muitos recursos para a pesquisa no exterior por meio de diferentes editais. Há bolsas de doutorado pleno, bolsas sanduíche no exterior, pós-doutorados etc., que permitem o adensamento da reflexão sobre o cinema brasileiro em centros universitários importantes na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina.

Por outro lado, tudo o que diz respeito ao patrimônio cultural em nosso país não é tratado com a devida importância, sendo de fato lembrado por conta de alguma efeméride, como a que teremos em 2022 com o bicentenário da proclamação da independência, o que levará a destinação, espero, de mais recursos às instituições de guarda dessa memória, ou em virtude de algum desastre, como foi o incêndio do Museu Nacional, que deixou a todos atônitos. Como dizia Paulo Emílio Salles Gomes nos anos 1950, “não há cultura sem perspectiva histórica, e como conhecer a história do cinema se os filmes não foram conservados?” Infelizmente, apesar dos inegáveis avanços, a pergunta ainda faz sentido.

 

 

Sobre Eduardo Morettin:

 

Professor de História do Audiovisual da Escola de Comunicações e Artes da USP. É autor de Humberto Mauro, Cinema, História (SP, Alameda Editorial, 2013), dentre outras obras. É um dos líderes do Grupo de Pesquisa CNPq História e Audiovisual: circularidades e formas de comunicação (site http://historiaeaudiovisual.weebly.com/), que organiza, dentre outras atividades, o Colóquio Internacional de Cinema e História, atualmente em sua quarta edição. É bolsista produtividade em pesquisa CNPq, nível 2.

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