Por Que Ler Contemporâneas?
em 05/12/2014

Para quem se incomodou com o livro Por Que ler Contemporâneos – Autores que Escrevem o Século 21, que saiu recentemente pela Dublinense listando apenas 14 autoras e nenhuma delas brasileira, o site da ong  VIDA – Women in Literary Arts  pode ser um canal de acesso/pesquisa às literaturas pouco celebradas de mulheres autoras do mundo todo.

 A iniciativa tem por missão justamente aprofundar as discussões de gênero no mundo literário. Em crítica do New York Times: “Since it began several years ago, the VIDA count has been a reliable conversation-starter about gender disparity in the literary world.”

Entre as diversas matérias que trazem referências preciosas aos leitores e fazedores de listas, uma delas, intitulada “Anti-Lista”, destaca autoras desconhecidas não somente por serem mulheres mas também por escreverem em idiomas que não dominam o mercado literário mundial. O Brasil está na lista através da poetisa Adélia Prado, que é destacada por seu poema Com Licença Poética (traduzido ao inglês por Ellen Doré).

 
Com licença poética*
 
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

Ainda sobre o assunto da disparidade recorrente em listas e prêmios, a novata e já premiada Luisa Geisler, em sua coluna no O Globo, simplifica irreversivelmente a questão: “Se uma pessoa come apenas carne, sabe-se que é um consumo desequilibrado. Para mim, se tudo que se lê é escrito por um recorte da população, é tão desequilibrado quanto.”

Leia o texto na íntegra.

Leia também A Bela Adormecida, de Adélia Prado no original e na tradução de Ellen Doré.

Veja Adélia Prado no Jogo de Idéias Itaú Cultural.

 *PRADO, A. Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 11.

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