O Brasil fora de si – Encontro Conexões (2016)
em 21/03/2017

A mesa O impacto da história recentíssima do Brasil nas aulas de cultura e literatura brasileiras reuniu os professores Lucía Tennina (Universidad de Buenos Aires), Nelson Vieira (Brown University) e João Cezar de Castro Rocha (Uerj), que mediou a conversa.
O registro do debate, que encerrou a programação do Encontro Internacional Conexões 2016, pode ser ouvido a seguir. Mais abaixo, o relato da produtora cultural Fernanda Guimarães, pesquisadora do programa.



O Brasil fora de si
O eco das manifestações de junho de 2013 estaria presente nas mais de 1.000 escolas e mais de 100 universidades ocupadas enquanto acontecia a terceira e última mesa do 9º Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural. O professor de literatura comparada da Uerj e consultor do programa Conexões Itaú Cultural João Cezar de Castro Rocha começou a discussão com essa observação e questionando se o título pouco sintético atribuído à mesa – “O impacto da história recentíssima do Brasil nas aulas de cultura e literatura brasileiras” – não seria, ele mesmo, índice da incapacidade de se estabelecer interpretações conclusivas a respeito das manifestações de junho de 2013. Chamava atenção ainda para a novidade trazida por essas manifestações: a inversão do paradigma do privado se apropriando do público. Tratou-se, sobretudo, de um momento em que a rua foi tornada espaço efetivamente público, mas sem partidos políticos ou associações civis para dar coesão ao movimento.
Lucía Tennina, professora e pesquisadora da Faculdade de Letras da Universidade de Buenos Aires, e Nelson Vieira, professor e pesquisador de Estudos Portugueses & Brasileiros e Estudos Judaicos na Universidade Brown, ambos tradutores e mapeados do Projeto Conexões Itaú Cultural, contribuíram para a discussão apresentando o funcionamento de seus respectivos programas e cátedras, sua história e conteúdos oferecidos, dando uma dimensão de como se processa a questão política nas duas universidades.

 

Lucia Tennina (foto: Agência Ophelia)


Na Argentina, literatura brasileira é literatura estrangeira, não latino-americana. Lucía Tennina falou do panorama das redes de pesquisadores de literatura brasileira na Argentina, destacando a atuação fundamental de pesquisadores, professores e tradutores como Gonzalo Aguilar e Florencia Garramuño. Os alunos chegam ao programa de Literatura Brasileira e Portuguesa, inaugurado em 2009, informados por uma imagem estereotipada da cultura e da literatura brasileiras. Tennina não observou quebra quanto a esse aspecto, mas sim na resposta dos alunos ao programa – surpreendente, por exemplo, quando da participação de Ferréz em um evento na UBA em 2012.

 

Nelson Vieira (foto: Agência Ophelia)


Nos Estados Unidos, em 1975, foi aberto o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown – o primeiro do tipo no mundo –, cuja origem estava em 1969, quando os alunos se rebelaram contra um programa conservador. Nelson Vieira comentou o caráter francamente interdisciplinar do programa, apontando para a importância da pedagogia do ensino de português e para o enfoque no momento atual brasileiro. Este ano, no festival de cinema da Brazil Initiative da universidade, foram exibidos Boi Neon e Aquarius, sempre seguidos de debates, e uma das conferências da iniciativa deu início a um grupo de leituras que envolveu a análise crítica da atuação do Movimento Vem Pra Rua e da participação da mídia na forma de protestar que vem sendo experimentada no Brasil.
A repercussão da situação política brasileira está muito presente entre os alunos da UBA e da Brown. Com o avanço das agendas de direita na Argentina, nos EUA e no Brasil, será importante manter as conexões entre as diferentes realidades, dentro e fora da universidade, para que a literatura brasileira possa estar representada também nas suas possibilidades de transformação do mundo.

 

Nelson Vieira, Lucia Tennina e João Cezar de Castro Rocha (foto: Agência Ophelia)

 

Ouça o registro das outras mesas do encontro:

A tradução de Grande Sertão: Veredas

A literatura de Luiz Ruffato no exterior

 

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