Printemps Littéraire Brésilien ocupa universidades dos Estados Unidos com autores brasileiros
em 11/05/2018

Por Laura Folgueira

 

Durante o mês de abril de 2018, ocorreu uma nova etapa do Printemps Littéraire Brésilien, criado na Universidade de Sorbonne, na França, em 2014, por Leonardo Tonus, mapeado do Conexões Itaú Cultural. Com edições também na Bélgica, em Luxemburgo e na Alemanha, o evento chegou aos Estados Unidos – numa demonstração da crescente importância e presença da literatura brasileira nesse país.

 

O ciclo de debates, lançamentos e oficinas fez sua estreia norte-americana com uma conferência de três dias na Universidade Northwestern, localizada em Evanston, subúrbio de Chicago. Lá, escritores, alunos e o público interessado se reuniram para uma palestra de Tonus sobre as reconfigurações do transnacional na literatura brasileira. O pesquisador reforçou o desafio de organizar um projeto como o Printemps e a importância de “acreditar na literatura neste momento de incerteza e desesperança que vivemos pelo mundo”.

 

Sua fala girou, ainda, em torno das novas realidades globais e de como a literatura é capaz de registrar esses deslocamentos – como exemplo, usou sua pesquisa sobre a série de livros Amores Expressos, publicada no início da década pela editora Companhia das Letras, que levava escritores a viajar para países diversos e, então, relatar ficcionalmente esses percursos. Ao fim, Tonus destacou algo de que a literatura, tanto a brasileira quanto a global, ainda não foi capaz de dar conta: a situação dos refugiados.

 

Escritores convidados e organizadores na Universidade Northwestern, no primeiro dia do evento

Escritores convidados e organizadores na Universidade Northwestern, no primeiro dia do evento

 

O tema voltaria à baila no dia seguinte, debatido pelos escritores Adriana Lisboa, Chico Mattoso e José Luiz Passos. Em comum, une-os o fato de que suas carreiras se desenvolvem – ou foram iniciadas – no exterior: Lisboa, hoje, vive em Nova York; Passos, em Los Angeles; e Mattoso passou uma temporada em Chicago.

 

O cosmopolitismo se mostraria um assunto premente entre os escritores, sendo discutido, em seguida, por Alexandre Vidal Porto e Lucrécia Zappi. Na mesa intitulada Literatura, Tradução e Cosmopolitanismo, Zappi – que nasceu na Argentina, viveu no Brasil, estudou no México e mora nos Estados Unidos – comentou a difícil experiência de traduzir a si própria (o romance Acre) para o espanhol. Explicou que, apesar de sua vivência e embora a tarefa parecesse simples, foi um desafio grande, dando exemplos de sons e musicalidades que não se mantinham. Porto expressou opinião oposta, dizendo acreditar que seu trabalho como escritor se resume a escrever o original, sem se preocupar com qual será o resultado da tradução para uma língua estrangeira (no caso de seu romance Sergio Y. Vai à América, o inglês).

 

Houve, ainda, mesas dedicadas às novas imagens do Brasil presentes na prosa – aquela escrita por Chico Mattoso, Cintia Moscovich, Frances Peebles e Robson Viturino – e na poesia de resistência – representada por Fabio Weintraub e Allan da Rosa, que destacaram a inclusão de vozes marginalizadas em sua escrita.

 

O encontro foi também marcado por temas contemporâneos que permeiam a literatura escrita no Brasil e a forma como ela é lida e estudada aqui e em outros países. Pádua Fernandes, Natalia Borges Polesso e Alexandre Vidal Porto discutiram de que maneira aparecem, em suas obras, questões de gênero e sexualidade. Polesso, vencedora do Prêmio Jabuti por Amora, defendeu a inclusão de mulheres lésbicas em toda a sua diversidade – de origem, idade e classe social. Depois, Luli Penna, Natalia Borges Polesso e Cintia Moscovich debateram o que significa, hoje, ser uma escritora mulher no Brasil, destacando a necessidade de marcar território nos diversos gêneros em que trabalham – com destaque para a experiência de Penna com os quadrinhos, mercado ainda dominado por vozes masculinas.

 

Após a estreia, a Printemps Littéraire Brésilien seguiu para a Universidade Estadual de Ohio, a Universidade Brown e a Universidade do Novo México. O projeto, dessa forma, cumpre seu papel de levar a literatura brasileira a novos espaços e se torna, mais do que um simples evento, um movimento global.

 

Laura Folgueira é tradutora e pesquisadora. Formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e especializada em literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), é mestre em letras e estudos da tradução pela Universidade de São Paulo (USP). No mestrado, investigou a tradução da literatura brasileira nos Estados Unidos. Trabalha para diversas editoras brasileiras.

 

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