Entrevista com Richard Zenith, tradutor da antologia de Drummond lançada nos EUA
em 26/11/2015

por Rachel Bertol
Foi lançada este ano nos EUA a antologia bilíngue Multitudinous Heart (Farrar Straus & Giroux; 432 páginas), com 80 poemas de Carlos Drummond de Andrade, traduzidos por Richard Zenith. É a mais abrangente obra já publicada até o momento em língua inglesa do poeta de Itabira. Prêmio Pessoa de 2012, Zenith, reconhecido tradutor de Fernando Pessoa, está escrevendo uma alentada biografia do poeta português – “gênero calhamaço”, como ele diz nesta entrevista. “Apenas aceitei o desafio de traduzir Drummond por ser o poeta que é: objetivamente grande e que me diz muito pessoalmente”.

 

Como surgiu a iniciativa? Tem relação com a ida da obra do poeta para a Companhia das Letras, em 2012?

A ida de Drummond para a Companhia das Letras tem tudo a ver. Foi Luiz Schwarcz [editor da Companhia das Letras] quem cozinhou tudo com Jonathan Galassi, diretor da Farrar Straus & Giroux. Galassi é, ele próprio, notável tradutor de poesia, de autores como Leopardi e Montale. Quando ele estava na Random House, publicou a antologia Travelling in the Family (1986), com poemas de Drummond traduzidos por Elizabeth Bishop, Mark Strand, Thomas Colchie e Gregory Rabassa. Schwarcz e Galassi propuseram-me organizar a antologia e não hesitei. Drummond é um dos meus poetas preferidos de sempre.

 

Quando começa sua história com Drummond?

Enquanto tradutor, é recentíssima, mas não a minha história com a poesia brasileira. Aprendi o português no Brasil – vivi em Florianópolis três anos – e comecei a traduzir poetas brasileiros, como João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. Eu era um leitor apaixonado da poesia de CDA, mas nunca tinha traduzido nada dele.

 

Como chegou ao título?

Multitudinous Heart é o título que atribuí ao poema Coração numeroso, do primeiro livro de Drummond. Estas duas palavras exprimem, para mim, o gênio do poeta: a sua capacidade de ser, sob formas poéticas diversas, o coração de tantas pessoas.



Imagino que senhor tenha de algum modo “conversado” com as traduções de Drummond já existentes em inglês. Como definiria sua posição nessa ciranda poética?

John Nist, em 1965, publicou a primeira antologia de poesia drummondiana para inglês, mas foram as traduções de Bishop e Strand que primeiro chamaram a atenção de críticos e do público de poesia. Thomas Colchie também traduziu muitos poemas para Travelling in the Family e escreveu a introdução. Como é o meu costume, e suponho que o da grande maioria, traduzi e revi e os poemas de Multitudinous Heart sem consultar as traduções feitas por outros. Mas então sim, procurei as traduções existentes para inglês. Parece-me uma obrigação prestar atenção ao que os outros fizeram e aprender com eles. No entanto, esta “conversa” com outras traduções – no caso de Drummond – limitou-se praticamente ao plano de interpretação e, entre os 80 poemas desta nova antologia, apenas 15 surgem em Travelling.

 

Na cabeça do tradutor, como se dá a passagem do poeta português Fernando Pessoa ao brasileiro Drummond? O que um poeta poderia dizer ao outro?

Há um curioso ponto de contato que se prende com o fato da formação literária de Drummond dever muito aos 24 volumes da Biblioteca Internacional de Obras Célebres, que o pai do poeta lhe comprou quando este tinha 11 ou 12 anos. Drummond contou esta história em entrevistas e também no poema Biblioteca verde.  A Biblioteca era, em grande parte, uma tradução para português da International Library of Famous Literature (1898). Um dos tradutores da ambiciosa obra, preparada em Portugal em 1911-12, era o jovem e desconhecido Fernando Pessoa. Como se sabe, Drummond leu Pessoa e o homenageou num ou noutro poema, mas não houve real influência, dado Drummond ser daqueles poetas que nascem já grandes, já quase maduros, e leu Pessoa apenas mais tarde. Nem me parece que tenha havido muitas influências em comum, com a óbvia exceção de Camões, que CDA apreciava imenso e que FP apreciava (ou fingia apreciar) menos. Mesmo assim, há uma notável coincidência entre Drummond e Álvaro de Campos.  Um poema deste (Saí do comboio), redigido em 1934, termina “E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro”, o que nos recorda imediatamente os versos “Mundo mundo vasto mundo,/ mais vasto é meu coração”, do Poema de sete faces, publicado num jornal de Belo Horizonte seis anos antes. Drummond citava, ou parafraseava, Tomás Antônio Gonzaga, e mais tarde escreveria “Não, meu coração não é maior que o mundo./ É muito menor” (no poema Mundo grande), mas o seu “coração numeroso” percorre, maravilhosamente, toda a sua poesia, e o lema de Álvaro de Campos – “Sentir tudo de todas as maneiras” – vale também para o brasileiro.

 

Qual seria a expectativa da editora americana em relação ao livro?

A esperança da editora corresponde à minha: que o livro marque fortemente algumas pessoas e que ajude a fazer de Drummond um poeta de referência em língua inglesa.

 

Poderia nos contar sobre seus planos de tradução da literatura em língua portuguesa? Teremos mais do Brasil?  

Nos próximos tempos, preciso de dedicar-me à biografia de Pessoa. Para o futuro eu gostaria de voltar à poesia medieval (dos trovadores) e de traduzir mais Drummond e vários outros poetas. Está tudo em aberto, na verdade.

 

Traduzir o ritmo é um grande desafio: como definiria o de Drummond?

É extremamente variado e, a partir do livro Claro enigma (1951), o autor começou a empregar métricas regulares e formas tradicionais com mais frequência. O poeta compôs um bom número de sonetos, muitos dos quais não rimam, contrariando a noção de alguns, incluindo tradutores, que um soneto que não rima não é um verdadeiro soneto. Penso que o ritmo é, com efeito, o elemento fundamental da música poética de Drummond, de João Cabral, de Camões, de Pessoa e da grande maioria dos poetas.

 
Leia a seguir a versão para o inglês e a original de Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade, que integra a antologia.

 

 

Seven-sided Poem

 

When I was born, one of those twisted

angels who live in the shadows said:

“Carlos, get ready to be a misfit in life!”

 

The houses watch the men

who chase after women.

If desire weren’t so rampant,

the afternoon might be blue.

 

The passing streetcar’s full of legs:

white and black and yellow legs.

My heart asks why, my God, so many legs?

My eyes, however,

ask no questions.

 

The man behind the mustache

is serious, simple, and strong.

He hardly ever talks.

Only a very few are friends

with the man behind the glasses and mustache.

 

My God, why have you forsaken me

if you knew that I wasn’t God,

if you knew that I was weak.

 

World so large, world so wide,

if my name were Clyde,

it would be a rhyme but not an answer.

World so wide, world so large,

my heart’s even larger.

 

I shouldn’t tell you,

but this moon

but this brandy

make me sentimental as hell.

 

 

Poema de sete faces

 

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

 

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

 

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

 

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

 

Leia o verbete sobre Carlos Drummond de Andrade na Enciclopédia Itaú Cultural.

 

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