Evento na Alemanha promove a literatura marginal brasileira
em 22/05/2013

 

Entre hoje, dia 22, e o sábado seguinte, dia 1 de junho, acontece em Berlim, o evento “Über den (Stadt-)Rand geschrieben. Woche der Marginalen Literatur in Berlin” (Semana de Literatura Marginal em Berlim). Organizado pelo coletivo Urban Atitude, o evento terá o poeta e agitador cultural Sérgio Vaz como convidado de honra e a literatura periférica brasileira como destaque.

Umas das organizadoras, a pesquisadora alemã Ingrid Hapke conversou com o site do Conexões Itaú Cultural, contando um pouco sobre sua pesquisa de doutorado, que tem como tema a literatura marginal de São Paulo, e sobre o evento.

 

Conexões – Sua pesquisa de doutorado é focada em quais aspectos da literatura marginal/periférica?

Ingrid Hapke – O meu trabalho discute, por um lado, os conflitos que as produções literárias desses autores trazem para o campo literário, considerando que esse campo é marcado também pelas estruturas hegemônicas de uma nação. São as negociações entre as ideias de marginalidade e nação, na prática literária e seus escritos, que me interessam. Por outro lado, como as práticas literárias vão muito mais além do papel ou do livro impresso, as minhas análises abrangem também o contexto e as práticas específicas de divulgação e publicação, como o sarau, o blog e as editoras alternativas. Por isso, parto metodologicamente também das ciências sociais: o meu trabalho inclui etnografias e entrevistas. Não entendo a literatura marginal/periférica como literatura de testemunho porque ela é muito singular e disputa espaço e reconhecimento no campo literário. Procuro estabelecer relações entre as noções de literatura de testemunho e marginal/periférica para perceber as inovações e atualizações estéticas. Acredito que a literatura, de modo geral, não pode ser analisada sem os autores, os meios e as mediações que produzem um texto.

Na minha tese, só falo deste fenômeno no Brasil, até porque a temática é muito rica e complexa. Em muitos artigos sobre o tema fala-se que é necessário desenvolver um novo instrumentário de análise para estudar esse fenômeno, mas nem sempre esse novo instrumentário é desenvolvido ou aplicado coerentemente. Às vezes, por exemplo, fala-se da baixa complexidade estética dos textos – o que para mim é uma afirmação feita a partir de um olhar de estética tradicional –, em vez de se focar a complexidade que as distintas linguagens artísticas relacionadas a essa literatura apresenta, ou mesmo, a inserção desse movimento no campo cultural amplo. Para mim, é necessário entender qual é o contexto e o momento específico da literatura marginal/periférica e dos seus autores. É claro que eu, como alemã, talvez tenha uma outra perspectiva ou percepção do que está acontecendo nas periferias, mas acho, sendo ciente disso, que posso contribuir com esse olhar estrangeiro e criar um diálogo.

Como autores principais enfoco Sérgio Vaz e Ferréz. Eles são os percursores desta nova seara de autores, e seus discursos e práticas marcaram fortemente o movimento de literatura marginal/ periférica. Cito e analiso também textos ou práticas de outros autores que têm um nome forte dentro e fora do movimento, como Allan Santos da Rosa, Alessandro Buzo, Sacolinha, Rodrigo Ciríaco, Dugueto Shabazz, Dinha, etc. Do mesmo modo, cito outros textos e nomes menos conhecidos fora dos saraus, na tentativa de retratar um pouco a dinâmica do movimento e mostrar a diversidade desse campo cultural periférico.

 

Por que falar sobre esse tema? O que te trouxe ao Brasil?

Para mim, a cena cultural que está acontecendo nas periferias é uma das coisas mais interessantes da atualidade. É uma literatura feita por autores que antes foram excluídos do campo cultural e que agora escrevem e publicam, sem mediação, sobre temáticas que antes pouco interessavam. Os autores da periferia são, como Sérgio Vaz fala, os verdadeiros antropófagos: no seu fazer literário, integram aquilo que é tido como marginal à cultura nacional, ao mesmo tempo que se mostram fortemente ligados à cultura nacional mesmo e aos processos da globalização.

O que me trouxe ao Brasil foi a intuição de que precisava entender melhor o contexto para poder analisar os textos. Assim, busquei pesquisar a literatura marginal/ periférica onde ela nasce, nas periferias. Também entendi que havia muitos livros publicados de forma independente e que eu só poderia ter acesso a eles se estivesse no Brasil. Tive a impressão que simplesmente não conseguia decifrar esses textos literários adequadamente. Não foi tanto por causa da gíria das periferias, mas também por certos códigos culturais que eu não conhecia. As linguagens e a cultura da periferia não são ensinadas nos nossos cursos acadêmicos de língua e cultura brasileira. Por isso, decidi ir ao Brasil e ficar quase um ano nas periferias, tentando me culturalizar ao máximo que pude, embora saiba o quanto o processo dessa aprendizagem está longe de estar completo. Na verdade, só comecei a entender como funcionava o mercado alternativo, os objetivos e significados, a revolução e rebelião dessa literatura quando assisti aos eventos, vi e ouvi os autores declamarem os seus textos em bares da periferia, tomei onibus lotado, andei nas ruas mal asfaltadas. Neste contexto, muitas das letras e produções literárias já ganharam um outro significado daquele que apreendi lendo sozinha, na Alemanha. Também fiz bastante entrevistas para saber mais sobre as teorias que orientam essas práticas.

 

De que forma o evento que ocorre em Berlim abordará esse tema?

O evento em Berlim, com Sérgio Vaz como convidado principal, é pensado para chamar atenção para essa literatura nova que vem do Brasil, com as suas novas leituras e práticas, e também colocá-la para dialogar com a produção de autores marginais da Alemanha. O nosso evento ocorre antes da Feira do Livro em Frankfurt, que acontecerá em outubro tendo o Brasil como país convidado, mas onde esses autores vindos das margens não são muito contemplados ou são vistos como uma exceção exótica. Isso acontece porque essa produção literária, muitas vezes, não é aceita como literatura no Brasil. Além disso, o gênero privilegiado nesse tipo de evento é o romance, e a maioria dos autores periféricos escreve poesia ou prosa curta. Ao mesmo tempo, não há tradutores formados em cultura periférica na Alemanha que possam viabilizar o acesso do público alemão a essa literatura.

A Semana da Literatura Marginal/Periférica na Alemanha que o Coletivo Urban Artitude está organizando, e do qual faço parte, pretende dar visibilidade a essa produção em suas múltiplas formas: com a presença de poetas, realização de debates, exibição de documentários sobre a cena cultural que acontece na periferia de São Paulo e saraus que visam promover o encontro de artistas brasileiros e alemães, que vivenciam situações de marginalidade social ou não.

 

Há público, em Berlim, para essa temática?

A marginalidade sempre foi um tema de interesse para as mídias impressas e televisivas no Brasil e fora dele. Mas, predominantemente, os sujeitos que sofrem os processos de marginalização são abordados como objetos passivos ou agressores; raras vezes são vistos como agentes e menos ainda como agentes culturais. O Sérgio Vaz, como representante da literatura marginal/periférica, não é nem coitadinho nem autor de crime, ele é autor e transformador, e acho importante reforçar isso na minha produção acadêmica e em eventos dos quais participo.

Com eventos como este, estamos tentando agredir as fronteiras que ainda existem entre a cultura da elite e a popular, levando a um público amplo e espaços de grande visibilidade esse tipo de discussão. A Semana de Literatura Marginal/Periférica acontecerá em Berlim, Hamburgo e Colônia, que são as capitais culturais da Alemanha e têm populações multiculturais, abertas e interessadas em novas produções estéticas, além de contarem com as maiores comunidades brasileiras e portuguesas, assim como com as maiores periferias urbanas do país. Com os eventos, tentamos atingir um público amplo: os acadêmicos, os imigrantes lusófonos e também artistas e ativistas culturais morando na Alemanha.

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