FRANKFURT – PORTAL E TERMÔMETRO PARA A LITERATURA BRASILEIRA NO EXTERIOR
em 15/10/2019

A Feira Internacional do Livro de Frankfurt, que este ano acontece de 16 a 20 de outubro, é o maior evento da indústria editorial internacional. É também um termômetro de tendências e perspectivas para a internacionalização da literatura de cada país que está presente.


O Brasil já foi o convidado de honra em duas ocasiões – 1994 e 2013 – quando foram montados grandes estandes, com a presença de autores e extensas programações culturais. As feiras anuais, entretanto, é que dão a continuidade possível para a divulgação da literatura brasileira no exterior, e os agentes literários são peças essenciais desse processo. Este ano, o país convidado de honra de Frankfurt é a Noruega, mas a indústria editorial brasileira terá o estande organizado pela Câmara Brasileira do Livro, através do programa Brazilian Publishers, em parceria com a APEX.



O eixo das atividades de negociação de direitos autorais é conduzido por centenas de agentes literários, que negociam os direitos de publicação de seus autores. Para sentir o clima da recepção da literatura brasileira no exterior em 2019 e quais as perspectivas para o próximo ano, entrevistamos três das principais agentes literárias que trabalham com livros de autores brasileiros, duas sediadas no Brasil e uma na Alemanha: Lucia Riff, Luciana Villas-Boas e Nicole Witt.


Lucia Riff destacou as tendências que observou na demanda de livros de autores brasileiros no decorrer de 2019, e notou “o gênero de livro que tem interessado mais: os coagentes têm pedido livros que falem de questões climáticas, meio ambiente, feminismo. O audiovisual tem tido bom impacto também no interesse pelos livros adaptados – já que as séries da Amazon, HBO e Netflix passam em todo o mundo.”


Luciana Villas-Boas destacou o impulso que recebeu com a adaptação do romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, que virou filme dirigido por Karin Aïnous, e está concorrendo ao prêmio de Melhor Adaptação Literária, promovido pela própria Feira de Frankfurt. Ela conta que o sucesso da adaptação cinematográficaatraiu muita atenção, e sentimos maior receptividade ao nosso catálogo como um todo. As notícias sobre o primeiro romance de Martha Batalha ajudaram a pavimentar a estrada do segundo, Nunca Houve um Castelo, vendido para França, Itália, Portugal e com outras negociações em processo, além de Eurídice continuar ampliando seu alcance, com cerca de 25 traduções publicadas ou a caminho. Outro destaque foi um ótimo contrato conquistado por Todo o Tempo do Mundo, de Maurício Gomyde, rapidamente publicado pela Rowohlt, forte editora alemã que, por sua vez, logo vendeu direitos de áudio para a Argon, ambas as edições, em papel ou CD, já acessíveis ao público leitor do país.”


Nicole Witt, da Agência Literária Mertin, especializada em literatura em português, com sede na Alemanha, assinala os pontos altos do último ano: “Aconteceram várias coisas ótimas, como o grande sucesso da edição alemã de Gog Magog da Patrícia Melo. Ela esteve durante vários meses na KrimiBestenliste da FAZ e Deutschlandradio Kultur. Participou num festival de literatura aqui em Frankfurt, Litprom Literaturtage, e no grande festival de literatura de Colônia, a lit.COLOGNE. O romance de Patrícia Melo teve direitos para a França e para o árabe negociados em 2019. Também estamos negociando direitos audiovisuais para a obra da Patrícia, mas ainda não posso entrar em detalhes. João Paulo Cuenca apresentou Descobri que Estava Morto na feira de Madrid, e Adriana Lisboa ficou em segundo lugar no prestigioso prémio Casa de las Américas 2019, na categoria poesia, com Uma Pequena Música. A editora de língua espanhola de Os Diários de Pilar, da Flávia Lins e Silva, a Vergara & Riba, comprou direitos para dois títulos também para Espanha, depois do sucesso na América Latina. Na última feira de Buenos Aires a Pilar dominou o estande da editora com uma presença enorme.” A agência também conseguiu contratos para o romance de Paulo Lins, Desde que o Samba é Samba, na Finlândia, e para livros de Augusto Boal em chinês (Taiwan), árabe e turco. Ainda em 2019, a agência negociou direitos de Os Leopardos de Kafka, de Moacir Scliar, para o árabe, e Gog Magog, de Patrícia Melo, para francês e árabe.


Carola Saavedra, uma das autoras representadas por Nicole Witt, participará de evento na “Ágora” – o espaço central da Feira, no dia 17, na companhia de Leonardo Padura, Carlos Franz, Patrício Pron e Corinna Santa Cruz sobre a possível diferença entre “escrever longe de casa e em casa”. Tatiana Salem Levy, outra representada, esteve na Feira de Gotemburgo, na Suécia, onde fez uma palestra.


PERSPECTIVAS


Lucia Riff espera manter o ritmo de contratações de seus autores, mas lembra que “o espaço para a tradução de autores brasileiros no exterior é pequeno e que a bolsa de tradução não atinge a todos os contratos negociados. O fato é que seria necessário um investimento muito maior da parte de todos os envolvidos para que o número de publicações aumentasse, de fato. Mas, vamos fazendo o que dá para fazer – e vamos comemorar tudo que tem sido conquistado.”


Além se se preparar para aproveitar o embalo do romance de Márcia Batalha, Luciana Villas-Boas embarca para sua 26ª. Feira de Frankfurt (sem interrupções, diz ela), e levará outro trunfo de título que teve adaptação para o audiovisual: “Faremos forte campanha pelo primeiro romance de Edney Silvestre, Se Eu Fechar os Olhos Agora, que tem um gancho excelente, sua adaptação para minissérie, recentemente anunciada como finalista do prêmio Emmy, o Oscar da televisão. É um romance que explora temáticas muito atuais do racismo e da violência contra a mulher no Brasil.”


Luciana também avalia “que o próximo romance de Maria José Silveira, Maria Altamira, será um dos livros de nossa lista que mais tocarão o editor estrangeiro. Ainda inédito no Brasil, a sair pela Instante, o livro relata a história imensa e aterradora de duas mulheres fortes, duas indígenas, uma peruana, Quéchua, outra brasileira, Juruna, mãe e filha, e pelo fio do imenso drama que as une revela os meandros da tragédia amazônica. Costumo dizer que depois que li Maria Altamira passei a chorar a perda do Rio Xingu para a usina de Belo Monte como um indígena a chora, o romance oferece a percepção da aniquilação e humilhação primordiais da floresta, um sentimento que não é natural à população branca do Sudeste. Amazônia é o grande assunto brasileiro no cenário internacional e o romance de Maria José revela e explica, expõe e sensibiliza, sobre a questão ambiental e indígena, como nenhum outro livro.”


Nicole Witt anuncia a publicação em inglês do romance Flores Azuis, da Carola Saavedra, esperando que, a partir dessa tradução, possa negociar direitos para outros países. Para apresentar este ano em Frankfurt, Nicole Witt terá outro título de Patrícia Melo (Mulheres empilhadas), de Adriana Lisboa (Todos os Santos), e o recém lançado romance de Joca Terron, A morte e o Meteoro, além de Marrom e Amarelo, do Paulo Scott. “São quatro romances bem fortes que falam do Brasil atual, de novo no foco da atualidade devido ao novo presidente.”

por Felipe Lindoso

 


Assista também a vídeos com depoimentos de alguns dos autores para o Itaú Cultural:


Carola Saavedra


João Paulo Cuenca


Joca Reiners Terron


Flávia Lins e Silva


Maria José Silveira


Tatiana Salem Levy

 

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