Paulo Lins, Luiz Ruffato e Marcelino Freire no debate sobre “Qual Brasil para qual romance?”, no Salão do Livro de Paris 2015
em 26/03/2015

No último dia 20 de março, o Stand do Brasil no Salão do Livro de Paris recebeu o debate Qual Brasil para qual romance? , com os escritores Paulo Lins, Marcelino Freire e Luiz Ruffato e mediação de Saulo Neiva.

 

O professor João Cezar de Castro Rocha, consultor do Conexões Itaú Cultural, acompanhou a atividade e nos enviou um relato da mesa com os autores de Cidade de Deus (Lins), Eles Eram Tantos Cavalos (Ruffato) e Nossos Ossos (Freire). Leia a seguir:

 

 

  Paulo Lins

 

O moderador Saulo Neiva, professor da Université Blaise Pascal, principiou a mesa destacando um ponto em comum entre os autores: o compromisso com um olhar corrosivo sobre a sociedade brasileira.

 

Em seguida, Neiva perguntou a Paulo Lins acerca de seu último romance, Desde que o samba é samba: haveria nesse romance uma perspectiva diversa à desenvolvida em Cidade de Deus? Isto é, em lugar da análise corrosiva da origem das desigualdades sociais, predominaria o encantamento do autor pelo universo da música popular.

 

Em sua resposta, Lins assinalou outro aspecto: seu elogio do samba procurou destacar, sobretudo, a resistência da cultura negra no Brasil. Nas palavras do autor, “a cultura é uma máquina de guerra”; por isso, o processo de dominação supõe sempre a supressão da religião e da cultura do outro. Daí, a valorização do samba, pois sua relação intrínseca com as religiões afro-brasileiras une as duas pontas.

 

Por fim, o autor revelou que o projeto que levou ao romance Desde que o samba é samba antecedeu a escrita de Cidade de Deus, e foi parcialmente inspirado pela leitura do ensaio de Octavio Paz, O arco e a lira, no qual o poeta-pensador mexicano afirmou o caráter insubstituível da religião e da cultura.

 

Nesse sentido, Desde que o samba é samba articula uma reflexão crítica sobre a sociedade brasileira, suas formas violentas de supressão da alteridade, assim como resgata as formas de resistência da cultura popular.

 

 

  Luiz Ruffato

Saulo Neiva discutiu a seguir o projeto literário de Luiz Ruffato, destacando Eles Eram muitos Cavalos como um título revelador. Vale dizer, a alusão ao verso de Cecília Meireles, extraído de Romanceiro da Inconfidência, esclarece a mescla de preocupação social e apuro formal; olhar crítico e rigor linguístico – traços definidores da literatura de Luiz Ruffato.

 

No caso de sua produção, Ruffato assinalou o esforço de pensar, formalmente, as mudanças estruturais do capitalismo no século XXI. Ora, prosseguiu, se o romance é um gênero que se desenvolveu plenamente sob o capitalismo, como pensar suas transformações atuais?

 

No caso brasileiro, sublinhou o escritor, ocorre um choque de temporalidades, que torna o tema ainda mais complexo: como inventar uma forma literária capaz de dar conta de uma sociedade na qual convivem o século XVI e o século XXI? Daí, a fragmentação das formas narrativas, assim como a pluralidade de vozes e mesmo de recursos tipográficos usados na composição.

 

Nesse sentido, prosseguiu, Estive em Lisboa e Lembrei de Você, leva adiante o exame da classe média baixa, presente na pentalogia de Inferno Provisório, agora não mais limitado ao êxodo rural, mas ampliado à imigração para outro país.

 

O autor concluiu com uma ressalva: o caráter crítico de sua literatura implica uma aposta: o leitor pode tornar-se agente de mudança das estruturas sociais.


  Marcelino Freire

Saulo Neiva assinalou que Nossos Ossos é o primeiro romance de Marcelino Freire, até então consagrado pelas coletâneas de contos. Nas palavras do autor, trata-se de uma “prosa longa”. 


Marcelino destacou o eixo de sua ficção: a experiência da imigração; traço que estrutura a vivência do autor, pois, desde muito jovem, experimentou a imigração como condição existencial. Em boa medida, propôs o escritor, tal circunstância tornou-se a própria forma de sua literatura – e isso radicalmente. 


Ora, seus personagens nunca estão onde desejam. As palavras nunca se encontram onde os leitores esperam. Mais: elas não ocupam um lugar único; pelo contrário, prosseguiu Marcelino, seus textos provocam deslizamentos de sentido, multiplicando as possibilidades de interpretação. 


O projeto de Nossos Ossos envolve, assim, experiência biográfica e forma literária. 


Um exemplo forte: quando criança, Marcelino brincava com ossos, como é comum em sua região natal, na cidade de Sertânia (PE). Daí, o projeto de um “romance arqueológico”. Ora, assim como o arqueólogo reconstrói esqueletos a partir de um punhado de ossos, o leitor deveria reconstruir o romance a partir de histórias breves e de sugestões da própria narrativa.


 

 

 

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